Wednesday, April 22, 2026

Oyá e a etnozoologia do búfalo no Brasil


Quando se fala em búfalos no Brasil, primeiro se pensa no búfalo-d’água, Bubalus bubalis, que é originário da Ásia e foi introduzido no Brasil principalmente no final do século XIX. Adaptado a ambientes alagados, possui chifres curvos e grande força, sendo amplamente utilizado no preparo de solos inundados e na produção de carne, laticínios e couro na bubalinocultura. Pode ultrapassar uma tonelada de massa e vive em rebanhos (Minervino et al., 2020).

Queijo de Marajó. Foto: Arnaud Sperat Czar (Via: Estadão)

Mas além dele, o búfalo-africano Syncerus caffer, nativo da África subsaariana, também habita nosso imaginário. Adaptado a diferentes habitats, possui corpo robusto e chifres característicos. Vive em rebanhos, onde machos adultos podem atingir cerca de 900 kg, sendo capaz de se defender até de predadores como leões (Wilson e Reeder, 2005; Cornélis et al., 2014). Embora não esteja introduzido no Brasil, sua importância aparece em nossa cultura devido heranças e influências africanas.

A figura do búfalo conecta-se à Iansã, ou Oyá, orixá dos ventos, raios e mãe dos eguns (espíritos ancestrais). Sua força e presença marcante evocam as qualidades dessa divindade, simbolizando o poder transformador de Iansã em rituais onde a figura do animal, direta ou simbólica, reforça vínculos ancestrais e espirituais (Silva, 2018; Prandi, 2020).

Conta-se que Iansã vivia como um búfalo, podendo transformar-se em mulher ao despir sua pele. Ogum a viu, escondeu sua pele e a impediu de partir; Iansã aceitou viver com ele sob a condição de que seu segredo nunca fosse revelado, e tiveram nove filhos.

Quando o segredo foi descoberto, Iansã recuperou sua pele, retomou sua forma de búfalo e, em fúria, destruiu o que a cercava, poupando apenas seus filhos. Antes de partir, deixou-lhes seus chifres, para que pudessem invocar sua força sempre que necessário.

    Essa espécie compartilha com Oyá uma semelhança arquetípica: um espírito que é forte, poderoso, imprevisível e, às vezes, raivoso, mas também protetor, nutridor e maternal. Enquanto, para Iansã, essas características são observadas nos mitos e nos aspectos religiosos de seu culto, no búfalo elas surgem a partir da própria observação desse animal na natureza, ou seja, de sua própria zoologia.

    O búfalo entra na categoria de nutridor, pois, quando é predado ou caçado, oferece uma quantidade enorme de alimento e de recursos; afinal, é um animal que pode chegar a quase uma tonelada. No entanto, ele não é uma presa fácil; pelo contrário, é considerado um dos animais mais fortes e poderosos da fauna africana. Inclusive, toda essa força e imprevisibilidade associadas a ele são a principal justificativa para essa espécie não ter sido domesticada pelo ser humano.

A caça desse animal sempre foi um desafio, mas, eventualmente, conseguia-se abatê-lo e, uma vez morto, o búfalo oferecia, primeiramente, o recurso alimentar, mas também eram aproveitados a pele e os chifres. Esses chifres, por sua vez, eram incorporados, em alguns contextos, a práticas religiosas e rituais, o que nos leva de volta ao mito de Oyá, no qual ela instrui seus filhos a utilizá-los como uma forma de evocá-la.

Assim, esse animal, conhecido por tanta força e potência, mas também por seu caráter protetor, já que muitas vezes manifesta toda essa força justamente para defender seus filhotes e o seu bando, possivelmente foi percebido pelos antigos como uma encarnação da força de Oyá.


Referências Bibliográficas

  • CORNÉLIS, D.; MELLETTI, M.; KORTE, L.; RYAN, S. J.; MIRABILE, M.; PRIN, T.; PRINS, H. H. African buffalo (Syncerus caffer (Sparrman, 1779)). In: ______. Ecology, evolution and behaviour of wild cattle: implications for conservation. [S.l.]: [s.n.], 2014. p. 326–372.
  • MINDLIN, Betty. Bodas de carne, ou amores no reino animal. Ponto e Vírgula: Revista de Ciências Sociais, 2007.
  • MINERVINO, A. H. H.; ZAVA, M.; VECCHIO, D.; BORGHese, A. Bubalus bubalis: a short story. Frontiers in Veterinary Science, v. 7, p. 570413, 2020.
  • NUNES, Augusto César Miranda; PACHECO, Agenor Sarraf. Arte (manhas) da cultura afroindígena: trajetórias e experiências de Mestre Damasceno pelo Marajó dos Campos. Boitatá, v. 7, n. 13, p. 1–19, 2012.
  • PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
  • SILVA, Tulani Pereira. Entre búfalos e borboletas: dançando reflexões sobre corpo e gênero no cotidiano a partir da figura de Oyá-Iansã. Nganhu, v. 1, n. 1, 2018.
  • TORRES, Vladimir Stolzenberg. Aspectos etnozoológicos relacionados com a Umbanda Nagô. Unisanta BioScience, v. 8, n. 4, p. 423–446, 2019.
  • WILSON, Don E.; REEDER, DeeAnn M. (eds.). Mammal Species of the World: a taxonomic and geographic reference. 3. ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2005. Disponível em: https://www.departments.bucknell.edu/biology/resources/msw3/browse.asp?id=14200707. Acesso em: 22 abr. 2026.

Tuesday, April 21, 2026

O dragão está morto? Ogum, São Jorge, as plantas e os bichos

    Quando falamos de São Jorge e de Ogum, logo lembramos da espada-de-são-jorge. A Dracaena trifasciata é uma planta de origem africana e muito ornamental, tanto por sua beleza e resistência quanto pelas crenças associadas a ela. É usada como planta de proteção e abertura de caminhos. É associada ao orixá guerreiro e protetor Ogum, que, ao ser sincretizado com São Jorge, passou a compartilhar com o santo essa ligação com a planta. Hoje, a espada-de-ogum pode ser encontrada por toda parte e é um verdadeiro símbolo da etnobotânica brasileira (Barros e Napoleão, 2007; Marino, 2025; Lopes et al., 2026; RBG, 2026).

    Já na etnozoologia, o cavalo se conecta à ideia de movimento, batalha, poder e travessia (Sams e Carson, 2000). A figura de São Jorge, transformada ao longo do tempo, passou a ser acompanhada de seu emblemático corcel (Furnivall et al., 1868; Voragine, 1931; Riches, 2015; Ramos, 2026), enquanto Ogum evoca o totem do cavalo tanto pelo sincretismo com o santo quanto por seu aspecto guerreiro e sua relação com entidades rurais e pastoris em vertentes das religiosidades brasileiras. No entanto, mais tradicionalmente, Ogum está associado a outros animais, como as serpentes (Clyne, 1998; Prandi, 2020; Prandi, 2020; Batuke, 2026).

    O sacerdote e acadêmico nigeriano Wande Abimbola descreve Mónámoná como uma cobra associada a Ogum, caracterizada como uma serpente grande, bela e colorida. Segundo essa tradição, sua mordida não é venenosa durante o dia, mas pode tornar-se fatal após o pôr do sol. No contexto devocional iorubá, há registros do uso da imagem da cobra ao redor do pescoço como forma de conexão com Ogum (Abimbola apud de Barcelos, 2024).

    O dragão, por sua vez, nesse contexto, também remete à figura da serpente, animal que constitui um dos principais temas da etnobiologia simbólica, dada sua recorrente transição entre o sagrado e o pecado em diferentes sistemas culturais (Franco, 2020; Pacheco, 2025). A lenda de Jorge, guerreiro puro e virgem, derrotando o dragão, é interpretada como um símbolo das Cruzadas e da vitória sobre a chamada “idolatria pagã ou herética”, na qual a serpente, o pecado e o demônio são frequentemente articulados como imagens equivalentes. Trata-se de uma construção narrativa da Europa medieval que expressa a legitimação simbólica da expansão cristã e da supressão de outras cosmovisões e culturas (Druida, 2009; Tratnik, 2025).

"Arauto dos bens eternos,

Combatente do paganismo e da idolatria,

Vencedor do dragão infernal,

Terror dos espíritos impuros"

- Trecho de ladainha de São Jorge (apud de Druida, 2009).

    Assim como a promessa de varrer as serpentes da Irlanda por São Patrício serviu de metáfora para a eliminação dos não cristãos, a morte simbólica do dragão também tentou ilustrar a superação do mundo "herege" (Kosloski, 2018; Combs, 2019).

    Mas, em várias manifestações brasileiras, o sincretismo, que manifestou o culto aos orixás por trás dos santos católicos, acabou exaltando a imagem de Ogum. O Jorge que muitos brasileiros celebram, com festa, cerveja e feijoada, se afastou do santo virgem e devoto. Temos um caso em que o sincretismo não se limitou a colocar Ogum sob o nome de São Jorge, mas projetou na cultura um São Jorge que, em termos de arquétipo, correspondências e rituais, é Ogum em sua origem. 

    Fenômenos como esse mostram recursos da sabedoria e da tradição ancestral em sobreviver e resistir, seja pelas marcas na cultura, seja pela manutenção de velhos deuses no inconsciente, como sugere Nise da Silveira:

“Nos profundos e intrincados labirintos da psique vivem ainda os deuses pagãos. Dois mil anos de cristianismo representam apenas a superfície” (Silveira, 1977).

Olhando por esse lado, o dragão está vivo, e os imaginários seguem sendo resgatados em manifestações culturais que são amplas, ricas e orgânicas.

Autor: Iago Ferraz

Referências Bibliográficas:

  • BARCELOS, Renata. A cobra mónámoná do culto de Ogun e seu primeiro registro em 1852. Orisa Brasil, 2024. Disponível em: https://orisabrasil.com.br/Loja/9753-2/ Acesso em: 20 abr. 2026.
  • BARROS, José Flávio Pessoa de; NAPOLEÃO, Eduardo. Ewé Òrìsà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de Candomblé Jêje-Nagô. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
  • COMBS, Sydney. Who was Saint Patrick and why does he have a day? National Geographic, 1 fev. 2019. Disponível em: (inserir URL). Acesso em: 22 abr. 2026.
  • CLYNE, Robert Marcel. Ogun Worship in Idanre: Iron and Identity in a Yoruba Town. Ph.D. thesis, Yale University, 1998.
  • DRUIDA, Aeryus o. O paganismo e São Jorge. Vale do Bruxo, 2009. Disponível em: https://valedobruxo.blogspot.com/2009/08/o-paganismo-e-sao-jorge.html. Acesso em: 22 abr. 2026.
  • FRANCO JÚNIOR, H. A serpente, espelho de Eva: iconografia, analogia e misoginia em fins da Idade Média. Medievalista, n. 27, p. 2–42, 2020.
  • FURNIVALL, Frederick J.; PERCY, Thomas; HALES, John W. Bishop Percy’s Folio Manuscript: Loose and Humorous Songs. Londres: BiblioLife, 1868.
  • KOSLOSKI, Philip. São Patrício expulsou mesmo todas as cobras da Irlanda? Aleteia, 16 mar. 2018. Disponível em: https://pt.aleteia.org/2018/03/16/sao-patricio-expulsou-mesmo-todas-as-cobras-da-irlanda/. Acesso em: 22 abr. 2026.
  • LOPES, R. C.; DUTILH, J. H. A.; CAMPOS-ROCHA, A. Asparagaceae in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB631982. Acesso em: 22 abr. 2026.
  • MARINO, Isabela da Silva. Sociobiodiversidade urbana: uma análise etnobotânica dos quintais residenciais em diferentes bairros de Campo Grande, MS. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Biológicas) – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 2025.
  • PACHECO, A. S. O menino de Mibaraió e a cosmologia da serpente: ancestralidade, transculturalidade e saberes decoloniais na Amazônia. Cadernos de Pesquisa, v. 32, n. 4, p. 1–33, 2025.
  • PRANDI, Reginaldo. Ogum: caçador, agricultor, ferreiro, trabalhador, guerreiro e rei. São Paulo: Pallas, 2020a.
  • PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2020b.
  • RAMOS, Felipe de Azevedo. Quem foi São Jorge? 7 curiosidades: desde a lua até o dragão. Gaudium Press, 2020.
  • RICHES, Samantha. St George: A Saint for All. Londres: Reaktion Books, 2015.
  • ROYAL BOTANIC GARDENS, KEW. Dracaena trifasciata. Plants of the World Online. Disponível em: https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:77164235-1. Acesso em: 22 abr. 2026.
  • SAMS, Jamie; CARSON, David. Cartas xamânicas: a descoberta do poder através da energia dos animais. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
  • SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1977. Cap. 8: “O tema mítico de Dionisos”.
  • TRATNIK, Polona. Saint George, the Dragon Slayer. 2025. DOI: 10.19233/AH.2025.23. Disponível em: https://doi.org/10.19233/AH.2025.23. Acesso em: 22 abr. 2026.
  • VORAGINE, Jacobus de. The Golden Legend or Lives of the Saints. Londres: J. M. Dent and Sons, 1931.