Quando falamos de São Jorge e de Ogum, logo lembramos da espada-de-são-jorge. A Dracaena trifasciata é uma planta de origem africana e muito ornamental, tanto por sua beleza e resistência quanto pelas crenças associadas a ela. É usada como planta de proteção e abertura de caminhos. É associada ao orixá guerreiro e protetor Ogum, que, ao ser sincretizado com São Jorge, passou a compartilhar com o santo essa ligação com a planta. Hoje, a espada-de-ogum pode ser encontrada por toda parte e é um verdadeiro símbolo da etnobotânica brasileira (Barros e Napoleão, 2007; Marino, 2025; Lopes et al., 2026; RBG, 2026).
Já na etnozoologia, o cavalo se conecta à ideia de movimento, batalha, poder e travessia (Sams e Carson, 2000). A figura de São Jorge, transformada ao longo do tempo, passou a ser acompanhada de seu emblemático corcel (Furnivall et al., 1868; Voragine, 1931; Riches, 2015; Ramos, 2026), enquanto Ogum evoca o totem do cavalo tanto pelo sincretismo com o santo quanto por seu aspecto guerreiro e sua relação com entidades rurais e pastoris em vertentes das religiosidades brasileiras. No entanto, mais tradicionalmente, Ogum está associado a outros animais, como as serpentes (Clyne, 1998; Prandi, 2020; Prandi, 2020; Batuke, 2026).
O sacerdote e acadêmico nigeriano Wande Abimbola descreve Mónámoná como uma cobra associada a Ogum, caracterizada como uma serpente grande, bela e colorida. Segundo essa tradição, sua mordida não é venenosa durante o dia, mas pode tornar-se fatal após o pôr do sol. No contexto devocional iorubá, há registros do uso da imagem da cobra ao redor do pescoço como forma de conexão com Ogum (Abimbola apud de Barcelos, 2024).
O dragão, por sua vez, nesse contexto, também remete à figura da serpente, animal que constitui um dos principais temas da etnobiologia simbólica, dada sua recorrente transição entre o sagrado e o pecado em diferentes sistemas culturais (Franco, 2020; Pacheco, 2025). A lenda de Jorge, guerreiro puro e virgem, derrotando o dragão, é interpretada como um símbolo das Cruzadas e da vitória sobre a chamada “idolatria pagã ou herética”, na qual a serpente, o pecado e o demônio são frequentemente articulados como imagens equivalentes. Trata-se de uma construção narrativa da Europa medieval que expressa a legitimação simbólica da expansão cristã e da supressão de outras cosmovisões e culturas (Druida, 2009; Tratnik, 2025).
"Arauto dos bens eternos,
Combatente do paganismo e da idolatria,
Vencedor do dragão infernal,
Terror dos espíritos impuros"
- Trecho de ladainha de São Jorge (apud de Druida, 2009).
Assim como a promessa de varrer as serpentes da Irlanda por São Patrício serviu de metáfora para a eliminação dos não cristãos, a morte simbólica do dragão também tentou ilustrar a superação do mundo "herege" (Kosloski, 2018; Combs, 2019).
Mas, em várias manifestações brasileiras, o sincretismo, que manifestou o culto aos orixás por trás dos santos católicos, acabou exaltando a imagem de Ogum. O Jorge que muitos brasileiros celebram, com festa, cerveja e feijoada, se afastou do santo virgem e devoto. Temos um caso em que o sincretismo não se limitou a colocar Ogum sob o nome de São Jorge, mas projetou na cultura um São Jorge que, em termos de arquétipo, correspondências e rituais, é Ogum em sua origem.
Fenômenos como esse mostram recursos da sabedoria e da tradição ancestral em sobreviver e resistir, seja pelas marcas na cultura, seja pela manutenção de velhos deuses no inconsciente, como sugere Nise da Silveira:
“Nos profundos e intrincados labirintos da psique vivem ainda os deuses pagãos. Dois mil anos de cristianismo representam apenas a superfície” (Silveira, 1977).
Olhando por esse lado, o dragão está vivo, e os imaginários seguem sendo resgatados em manifestações culturais que são amplas, ricas e orgânicas.
Referências Bibliográficas:
- BARCELOS, Renata. A cobra mónámoná do culto de Ogun e seu primeiro registro em 1852. Orisa Brasil, 2024. Disponível em: https://orisabrasil.com.br/Loja/9753-2/ Acesso em: 20 abr. 2026.
- BARROS, José Flávio Pessoa de; NAPOLEÃO, Eduardo. Ewé Òrìsà: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de Candomblé Jêje-Nagô. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
- COMBS, Sydney. Who was Saint Patrick and why does he have a day? National Geographic, 1 fev. 2019. Disponível em: (inserir URL). Acesso em: 22 abr. 2026.
- CLYNE, Robert Marcel. Ogun Worship in Idanre: Iron and Identity in a Yoruba Town. Ph.D. thesis, Yale University, 1998.
- DRUIDA, Aeryus o. O paganismo e São Jorge. Vale do Bruxo, 2009. Disponível em: https://valedobruxo.blogspot.com/2009/08/o-paganismo-e-sao-jorge.html. Acesso em: 22 abr. 2026.
- FRANCO JÚNIOR, H. A serpente, espelho de Eva: iconografia, analogia e misoginia em fins da Idade Média. Medievalista, n. 27, p. 2–42, 2020.
- FURNIVALL, Frederick J.; PERCY, Thomas; HALES, John W. Bishop Percy’s Folio Manuscript: Loose and Humorous Songs. Londres: BiblioLife, 1868.
- KOSLOSKI, Philip. São Patrício expulsou mesmo todas as cobras da Irlanda? Aleteia, 16 mar. 2018. Disponível em: https://pt.aleteia.org/2018/03/16/sao-patricio-expulsou-mesmo-todas-as-cobras-da-irlanda/. Acesso em: 22 abr. 2026.
- LOPES, R. C.; DUTILH, J. H. A.; CAMPOS-ROCHA, A. Asparagaceae in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB631982. Acesso em: 22 abr. 2026.
- MARINO, Isabela da Silva. Sociobiodiversidade urbana: uma análise etnobotânica dos quintais residenciais em diferentes bairros de Campo Grande, MS. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Biológicas) – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 2025.
- PACHECO, A. S. O menino de Mibaraió e a cosmologia da serpente: ancestralidade, transculturalidade e saberes decoloniais na Amazônia. Cadernos de Pesquisa, v. 32, n. 4, p. 1–33, 2025.
- PRANDI, Reginaldo. Ogum: caçador, agricultor, ferreiro, trabalhador, guerreiro e rei. São Paulo: Pallas, 2020a.
- PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2020b.
- RAMOS, Felipe de Azevedo. Quem foi São Jorge? 7 curiosidades: desde a lua até o dragão. Gaudium Press, 2020.
- RICHES, Samantha. St George: A Saint for All. Londres: Reaktion Books, 2015.
- ROYAL BOTANIC GARDENS, KEW. Dracaena trifasciata. Plants of the World Online. Disponível em: https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:77164235-1. Acesso em: 22 abr. 2026.
- SAMS, Jamie; CARSON, David. Cartas xamânicas: a descoberta do poder através da energia dos animais. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
- SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1977. Cap. 8: “O tema mítico de Dionisos”.
- TRATNIK, Polona. Saint George, the Dragon Slayer. 2025. DOI: 10.19233/AH.2025.23. Disponível em: https://doi.org/10.19233/AH.2025.23. Acesso em: 22 abr. 2026.
- VORAGINE, Jacobus de. The Golden Legend or Lives of the Saints. Londres: J. M. Dent and Sons, 1931.
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